O Que Você Precisa Saber
- Lesão comum: Ocorre em 70-90% das luxações patelares, especialmente em jovens atletas
- Tratamento conservador funciona: 60-80% dos casos de primeira luxação melhoram sem cirurgia
- Cirurgia não é garantia: Taxa de re-luxação pós-cirúrgica varia de 0-33% dependendo da técnica
- Tempo de recuperação realista: 6-9 meses até retorno ao esporte, independente do tratamento
- Fatores anatômicos importam: Displasia troclear e patela alta aumentam risco de falha conservadora
- Custos significativos: Cirurgia + reabilitação podem ultrapassar R$25.000 no Brasil
- Evidências conflitantes: Não há consenso sobre quando operar na primeira luxação
⚠️ IMPORTANTE
Se você sofreu luxação patelar recente (patela “saiu do lugar”), procure avaliação ortopédica imediata. Este artigo aborda ruptura do ligamento patelofemoral medial, lesão que frequentemente acompanha luxações patelares.
Índice
Introdução: A Lesão Invisível Que Causa Instabilidade no Joelho

Você estava jogando futebol, basquete ou simplesmente mudou de direção rapidamente – e sentiu seu joelho “sair do lugar”. A patela (rótula) se deslocou para o lado, causando dor intensa e pânico. Mesmo que ela tenha voltado sozinha, o estrago pode estar feito: ruptura do ligamento patelofemoral medial (LPFM).
Este ligamento, é o principal estabilizador que impede sua patela de luxar lateralmente. Quando se rompe, você fica com uma sensação persistente de instabilidade – o joelho parece “traiçoeiro”, especialmente ao girar ou descer escadas.
Aqui está a verdade que muitos médicos não enfatizam: a maioria das rupturas do LPFM melhora sem cirurgia, mas alguns casos realmente precisam de reconstrução. O desafio é saber em qual grupo você se encaixa – e é sobre isso que vamos falar honestamente neste artigo.
O Que a Ciência Diz Sobre o LPFM
Anatomia e Função: O Que Este Ligamento Faz
O ligamento patelofemoral medial é uma faixa de tecido fibroso que conecta a borda interna da patela ao fêmur (osso da coxa). Estudos biomecânicos mostram que:
Contribuição para estabilidade: O LPFM é responsável por 50-60% da resistência ao deslocamento lateral da patela nos primeiros 30° de flexão do joelho – exatamente a amplitude onde luxações ocorrem.
Localização estratégica: Origina-se em uma área específica do fêmur (entre o epicôndilo medial e o tubérculo adutor) e insere-se no terço superior da borda medial da patela. Esta anatomia varia entre indivíduos – uma das razões pelas quais algumas pessoas são mais suscetíveis a luxações.
Curiosidade: Em 90% dos casos, o LPFM se rompe próximo à sua inserção no fêmur. Menos frequentemente, rompe na porção média ou na inserção patelar.
Evidências Sobre Tratamento Conservador
Estudos favoráveis ao tratamento não-cirúrgico:
Meta-análise de Gravesen et al. (2021) com 1.340 pacientes mostrou que após primeira luxação patelar, o tratamento conservador resultou em re-luxação em 20-40% dos casos em 2-5 anos de seguimento. No entanto, a maioria dos pacientes (60-80%) ficou satisfeita e retornou às atividades.
Estudo prospectivo de Longo et al. (2022) demonstrou que 73% dos pacientes com tratamento conservador tiveram resultados “bons” ou “excelentes” aos 2 anos, definidos por escalas funcionais validadas.
Limitação importante: Estes estudos incluem pacientes sem fatores de risco anatômicos significativos. Quando há displasia troclear severa ou patela alta, os resultados conservadores pioram substancialmente.
Evidências Sobre Reconstrução Cirúrgica
O que dizem os estudos cirúrgicos:
Revisão sistemática de Shah et al. (2023) analisando 3.247 reconstruções de LPFM encontrou:
- Taxa de re-luxação: 0-33% (média 8%)
- Retorno ao esporte: 65-85% em 6-12 meses
- Complicações: 5-15% (infecção, rigidez, falha da reconstrução)
Estudo comparativo randomizado de Carstensen et al. (2020) – um dos poucos de alta qualidade – não encontrou diferença significativa entre cirurgia e tratamento conservador em primeira luxação aos 2 anos de seguimento.
Controvérsia cirúrgica: Existem mais de 15 técnicas descritas para reconstruir o LPFM. Não há consenso sobre qual é superior – autoenxerto (tendão do próprio paciente) vs aloenxerto (banco de tecidos) vs técnicas anatômicas vs não-anatômicas.
Por Que a Divergência nas Pesquisas?
Fatores que explicam resultados conflitantes:
- Heterogeneidade dos pacientes: Primeira luxação traumática em joelho normal é muito diferente de luxações recorrentes em joelho com displasia troclear
- Definição de “sucesso”: Alguns estudos consideram apenas re-luxação; outros incluem subluxação, dor e função
- Variação técnica: Diferentes cirurgiões usam técnicas distintas, dificultando comparações
- Viés de seleção: Cirurgiões tendem a operar casos mais graves, conservadores tratam casos mais leves
- Conflitos de interesse: Parte significativa da literatura cirúrgica vem de centros que desenvolveram técnicas específicas
Como Ocorre a Ruptura do LPFM
Mecanismo de Lesão Típico
Luxação traumática (mais comum):
- Rotação externa da tíbia com joelho em leve flexão
- Valgo forçado (joelho “pra dentro”) com pé fixo no chão
- Contração súbita do quadríceps com joelho semiflexionado
- Comum em esportes com mudança de direção (futebol, basquete, vôlei)
Luxação atraumática (menos comum):
- Ocorre em pacientes com frouxidão ligamentar generalizada
- Pode acontecer em atividades simples (sentar, levantar)
- Indica predisposição anatômica significativa
Fatores de Risco Anatômicos

Estudos identificam que determinadas variações anatômicas aumentam dramaticamente o risco:
Displasia troclear (sulco raso do fêmur): Presente em 85-96% dos pacientes com instabilidade patelar recorrente. Classificada em graus A-D (Dejour), sendo tipos C e D os mais problemáticos.
Patela alta (rótula muito elevada): Medida pelo índice de Caton-Deschamps ou Insall-Salvati. Quando >1.2-1.3, aumenta risco de re-luxação em 3-4 vezes.
Aumento da distância TT-TG (desalinhamento): Distância entre a tuberosidade tibial e o sulco troclear. Valores >20mm indicam desalinhamento significativo que predispõe a instabilidade.
Valgo de joelhos (joelhos “pra dentro”): Mais comum em mulheres, aumenta carga lateral na patela.
Torção tibial externa excessiva: Altera mecânica do mecanismo extensor.
Lesões Associadas Frequentes
A ruptura do LPFM raramente vem sozinha:
- Lesões condrais (cartilagem): 30-90% dos casos têm algum grau de lesão cartilaginosa
- Edema ósseo (contusão): Visível em ressonância, ocorre em 80-90% das luxações agudas
- Lesões meniscais: Menos comum (5-10%), mas pode ocorrer
- Lesão de outros estabilizadores: Retináculo medial frequentemente lesionado junto
Sintomas e Diagnóstico: O Que Observar
Sintomas Agudos (Pós-Luxação)
Imediatamente após o episódio:
- Dor intensa na região medial (interna) do joelho
- Inchaço rápido (hemartrose – sangue na articulação em 70% dos casos)
- Incapacidade de apoiar o peso ou caminhar
- Deformidade visível se patela permanece luxada
- Apreensão extrema ao movimento
Sintomas Subagudos/Crônicos
Nas semanas seguintes:
- Sensação de instabilidade ou “falseio” do joelho
- Apreensão ao descer escadas, mudar de direção ou girar
- Dor persistente na borda interna do joelho (local da ruptura do LPFM)
- Inchaço recorrente com atividades
- Fraqueza do quadríceps (atrofia muscular pode ocorrer rapidamente)
Teste da apreensão patelar: Durante exame físico, o médico empurra suavemente a patela lateralmente com joelho em 30° de flexão. Resultado positivo: paciente tensiona e relata medo de luxação iminente.
Exames de Imagem: O Que Cada Um Mostra
Radiografia simples: Primeiro exame solicitado
- Identifica fraturas, patela alta, displasia troclear
- Incidências específicas (axial de patela, perfil com 30° flexão)
- Limitação: não mostra ligamentos ou cartilagem
Ressonância Magnética (RM): Padrão-ouro para diagnóstico
- Confirma ruptura do LPFM (sensibilidade 90-95%)
- Identifica local exato da ruptura (femoral, médio, patelar)
- Mostra lesões condrais, edema ósseo, outras lesões ligamentares
- Avalia fatores de risco anatômicos (displasia troclear, TT-TG)
Tomografia Computadorizada (TC): Ocasionalmente solicitada
- Avalia melhor defeitos ósseos e morfologia troclear
- Mede com precisão distância TT-TG
- Útil no planejamento cirúrgico de casos complexos
Importante: Ruptura do LPFM nem sempre é visível em RM se houver cicatrização fibrótica em posição alongada – o ligamento “cicatriza” mas sem função adequada.
Tratamento Conservador: Para Quem e Como Funciona
Candidatos Ideais para Tratamento Não Cirúrgico com Fisioterapia
Perfil de paciente com maior chance de sucesso:
- Primeira luxação traumática
- Ausência de displasia troclear significativa (Dejour A ou B no máximo)
- Patela em altura normal (Caton-Deschamps <1.2)
- Distância TT-TG <20mm
- Ausência de lesões condrais grandes ou fragmentos ósseos soltos
- Motivação para reabilitação rigorosa
- Baixa demanda esportiva de pivô/rotação
Protocolo de Reabilitação Baseado em Evidências
Fase 1 – Aguda (0-2 semanas):
- Imobilizador em extensão apenas para conforto inicial (máximo 1 semana)
- Gelo e elevação para controle de edema
- Carga parcial com muletas conforme tolerância
- Exercícios isométricos de quadríceps (contrações sem movimento)
- Mobilização patelar suave
Fase 2 – Recuperação (2-6 semanas):
- Progressão para carga total
- Amplitude de movimento completa gradualmente
- Fortalecimento específico do vasto medial oblíquo (VMO)
- Controle neuromuscular e propriocepção
- Evitar movimentos de rotação/pivô
Fase 3 – Fortalecimento (6-12 semanas):
- Fortalecimento progressivo de quadríceps e glúteos
- Exercícios em cadeia fechada (agachamentos, leg press)
- Início de exercícios de agilidade em linha reta
- Core e estabilidade de tronco
Fase 4 – Retorno ao esporte (3-6 meses):
- Testes funcionais (hop test, força >90% do lado contralateral)
- Progressão de exercícios de mudança de direção
- Treino específico do esporte
- Eventual uso de órtese/bandagem patelar
Você sabia? Estudos mostram que 40-60% dos pacientes abandonam protocolos de reabilitação prematuramente – principal causa de falha do tratamento conservador.
Órteses e Dispositivos: Ajudam ou Atrapalham?
Órtese patelar com suporte lateral:
- Evidência: Reduz carga lateral em até 20-30% (estudos biomecânicos)
- Limitação: Não previne re-luxação em alta energia
- Uso recomendado: Fase de retorno gradual ao esporte (3-6 meses)
- Evitar: Dependência prolongada que pode enfraquecer musculatura
Kinesio tape/bandagem funcional:
- Evidência: Fraca para prevenção de luxação
- Possível benefício: Propriocepção e lembrança de cuidado
- Não substitui fortalecimento muscular
Tratamento Cirúrgico: Quando é Necessário
Indicações Cirúrgicas Com Melhor Evidência
Consenso relativo da literatura:
- Luxação recorrente após falha conservadora adequada (6 meses de reabilitação séria)
- Segunda luxação em paciente jovem atleta com instabilidade persistente
- Displasia troclear severa (Dejour C ou D) desde a primeira luxação
- Fragmento osteocondral grande solto na articulação
- Instabilidade objetiva incapacitante mesmo sem nova luxação
- Combinação de múltiplos fatores de risco anatômicos (patela alta + TT-TG aumentado + displasia)
Controverso/Sem consenso:
- Cirurgia de rotina após primeira luxação (mesmo em atletas)
- Indicação baseada apenas em RM mostrando ruptura completa
- Reconstrução isolada do LPFM em pacientes com desalinhamento significativo
Técnicas Cirúrgicas: O Que Funciona Melhor?
1. Reconstrução Anatômica do LPFM
Mais comum atualmente. Usa enxerto (autólogo ou alógeno) para recriar ligamento:
Autoenxerto (tendão do próprio paciente):
- Fonte: Grácil, semitendinoso, ou tendão quadricipital
- Vantagem: Sem rejeição, incorporação mais previsível
- Desvantagem: Morbidade do sítio doador (dor, fraqueza temporária)
Aloenxerto (banco de tecidos):
- Vantagem: Sem morbidade doadora, múltiplos tendões disponíveis
- Desvantagem: Custo maior, risco teórico de rejeição/infecção
- Evidência: Estudos mostram resultados similares ao autoenxerto
Fixação femoral: Ponto crítico da cirurgia – precisa ser anatômico (ponto de Schöttle). Erros de posicionamento aumentam falha em 3-5 vezes.
2. Reconstrução MPFL + Procedimentos Adicionais
Quando há desalinhamento significativo:
- Osteotomia de Fulkerson (TT-TG >20mm): Reposiciona tuberosidade tibial
- Trocleoplastia (displasia severa): Aprofunda sulco troclear – controverso, reservado para casos extremos
- Osteotomia de elevação troclear (patela alta): Abaixa patela
Combinações aumentam complexidade, tempo cirúrgico e riscos, mas podem ser necessárias em casos anatômicos extremos.
3. Técnicas Mais Antigas (Menos Usadas)
- Avanço/plicatura do retináculo medial: Taxa de falha alta (30-40%)
- Transferências tendinosas não-anatômicas: Abandonadas por alterarem biomecânica
Recuperação Pós-Cirúrgica Realista
Cronograma baseado em protocolos atuais:

0-2 semanas: Imobilizador, carga parcial, controle de dor/edema 2-6 semanas: Progressão de amplitude de movimento (0-120°), carga total 6-12 semanas: Fortalecimento progressivo, propriocepção 3-4 meses: Início de corrida em linha reta 4-6 meses: Exercícios de agilidade e mudança de direção 6-9 meses: Retorno ao esporte de contato/pivô (com testes funcionais)
Realidade: 15-35% dos atletas não retornam ao mesmo nível pré-lesão, independente da técnica cirúrgica.
Riscos e Complicações: O Que Pode Dar Errado
Tratamento Conservador
Complicações documentadas:
- Re-luxação: 20-40% em 2-5 anos
- Dor patelofemoral crônica: 15-30% dos casos
- Atrofia persistente de quadríceps: 20-40%
- Instabilidade subjetiva sem re-luxação: 10-25%
- Desenvolvimento de artrose patelo-femoral precoce: Dados limitados, mas risco existe
Fatores que aumentam falha conservadora:
- Não adesão à reabilitação (mais comum)
- Retorno precoce ao esporte
- Fatores anatômicos não identificados inicialmente
Tratamento Cirúrgico
Complicações gerais (5-15% total):
- Infecção: 1-3%
- Trombose venosa profunda/embolia: <1%
- Problemas de cicatrização: 2-5%
- Dor persistente no local de retirada do enxerto: 10-20%
Complicações específicas da reconstrução:
- Falha/re-ruptura da reconstrução: 3-8%
- Re-luxação apesar da cirurgia: 0-33% (média 8%)
- Rigidez articular/perda de movimento: 5-12%
- Fratura patelar (rara, durante fixação): <1%
- Sobretensionamento (patela muito apertada): 2-8%
- Consequência: Dor, condromalácia acelerada
Complicações de procedimentos adicionais:
- Osteotomia tibial: Não-consolidação (1-3%), dor no hardware, “material de síntese” (10-20%)
- Trocleoplastia: Artrose acelerada (dados insuficientes, técnica controversa)
Para Quem Cada Tratamento É Mais Adequado
Tratamento Conservador Prioritário
Perfil ideal:
- Primeira luxação traumática
- Idade <40 anos (capacidade de reabilitação)
- Sem fatores de risco anatômicos severos
- Acesso a fisioterapia de qualidade
- Motivação e disciplina para programa de 6 meses
- Atividades de baixa demanda ou disposição para modificar esporte
Expectativa realista: 60-80% de sucesso se protocolo bem executado
Cirurgia Deve Ser Considerada
Indicações mais fortes:
- Segunda ou terceira luxação com instabilidade persistente
- Primeira luxação + displasia troclear severa + patela alta
- Atleta de alto nível com instabilidade objetiva incapacitante
- Fragmento osteocondral >1cm² solto
- Falha de conservador bem executado (6+ meses)
Expectativa realista: 70-90% de satisfação, mas 15-35% não retornam ao nível pré-lesão
Casos Complexos (Avaliação Individualizada)
- Múltiplas luxações (>3) + desalinhamento severo: Considerar reconstrução + osteotomias
- Instabilidade multidirecional (patela luxa medial e lateralmente): Avaliação de hiperfrouxidão
- Lesão condral extensa: Discutir risco x benefício – cirurgia não trata cartilagem danificada
- Pacientes >40 anos: Menor demanda pode permitir tratamento conservador mesmo em casos “cirúrgicos”
Alternativas e Abordagens Complementares
Fortalecimento Muscular Direcionado
Evidência forte para:
Vasto Medial Oblíquo (VMO): Porção do quadríceps que traciona patela medialmente
- Exercícios específicos: Mini-agachamento com rotação externa de quadril, leg press unilateral
- Biofeedback/EMG pode otimizar ativação
- Fortalecimento isolado é difícil – integrar em movimentos funcionais
Glúteos (médio e máximo): Controla rotação/valgo de joelho
- Fraqueza de glúteo aumenta carga lateral na patela em 20-40%
- Exercícios: Ponte unilateral, monster walk, agachamento com banda
Core e estabilidade lombo-pélvica: Influencia cadeia cinética completa
- Core fraco aumenta valgo dinâmico de joelho
- Prancha, dead bug, chop and lift
Modificação de Atividades e Técnica Esportiva
Análise biomecânica:
- Correção de padrões de movimento (valgo excessivo no pouso)
- Técnica de aterrissagem (absorção de impacto)
- Calçados adequados (amortecimento, suporte)
Redução de fatores de risco:
- Perda de peso se IMC >25 (cada kg reduz carga patelar em 3-4x)
- Evitar atividades de alto risco na fase de reabilitação
- Progressão gradual de intensidade (regra de 10% – não aumentar >10%/semana)
Terapias Adjuvantes (Evidência Limitada)
PRP (Plasma Rico em Plaquetas):
- Evidência: Estudos iniciais em lesões ligamentares
- LPFM específico: Dados insuficientes
- Pode auxiliar cicatrização conservadora – não comprovado
Viscossuplementação (Ácido Hialurônico):
- Indicação primária: Artrose
- LPFM/instabilidade: Sem evidência de benefício
Proloterapia:
- Evidência: Fraca, estudos de baixa qualidade
- Não recomendado como tratamento primário
FAQ: Perguntas, Respostas Diretas
1. Posso deixar o LPFM rompido cicatrizar sozinho sem tratamento?
DEPENDE. O LPFM pode cicatrizar espontaneamente, mas frequentemente cicatriza “alongado” – ou seja, sem restaurar função estabilizadora adequada. Sem reabilitação muscular compensatória, risco de re-luxação é alto (40-60%). “Deixar quieto” sem fisioterapia raramente funciona. Mínimo necessário: protocolo de fortalecimento supervisionado.
2. Quanto tempo até eu poder voltar a jogar futebol/basquete?
MÍNIMO 4-6 MESES, REALISTA 6-9 MESES. Tratamento conservador bem-sucedido: 4-6 meses. Pós-cirurgia: 6-9 meses. Retorno depende de testes funcionais objetivos (força, hop test, agilidade) – não apenas tempo. 15-35% dos atletas não retornam ao mesmo nível, especialmente em esportes com pivô/rotação. Expectativas devem ser ajustadas individualmente.
3. A cirurgia garante que nunca mais vou ter luxação?
NÃO. Taxa de re-luxação pós-cirúrgica varia de 0-33% dependendo da técnica, qualidade da cirurgia e fatores anatômicos. Média ~8% em estudos de boa qualidade. Cirurgia reduz significativamente o risco, mas não elimina. Fatores anatômicos severos (displasia grau D, patela muito alta) têm risco maior mesmo após cirurgia perfeita.
4. Qual técnica cirúrgica é melhor – autoenxerto ou aloenxerto?
EVIDÊNCIAS MOSTRAM RESULTADOS SIMILARES. Meta-análises não encontram diferença significativa em taxa de re-luxação ou satisfação. Autoenxerto (seu próprio tendão): sem custo de tecido, morbidade doadora. Aloenxerto (banco): sem dor doadora, custo maior. Decisão baseada em preferência do cirurgião, disponibilidade e perfil do paciente (atleta pode preferir evitar site doador).
5. Preciso fazer cirurgia se minha ressonância mostra LPFM rompido?
NÃO NECESSARIAMENTE. Ruptura na RM não é indicação cirúrgica absoluta. 60-80% das primeiras luxações melhoram com tratamento conservador, mesmo com ruptura completa do LPFM. Cirurgia é baseada em: sintomas (instabilidade), falha conservadora, fatores anatômicos e demanda funcional – não apenas achado de imagem.
6. Meu médico quer fazer osteotomia além da reconstrução. É necessário?
DEPENDE DOS SEUS FATORES ANATÔMICOS. Se distância TT-TG >20mm ou patela muito alta, reconstrução isolada do LPFM tem maior chance de falha. Osteotomias (ósseas) adicionais corrigem desalinhamento, mas aumentam complexidade, tempo de recuperação e riscos. Decisão deve ser baseada em medidas precisas e discussão de risco-benefício. Segunda opinião é razoável em casos complexos.
7. Quanto custa o tratamento completo da ruptura do LPFM?
CONSERVADOR: R$1.500-4.000. Fisioterapia 2-3x/semana por 3-6 meses, exames controle.
CIRÚRGICO: R$15.000-35.000+. Varia enormemente: hospital (público/convênio/particular), técnica (reconstrução simples vs procedimentos adicionais), tipo de enxerto, cidade. Inclui: cirurgia, internação, implantes, fisioterapia pós-op. Custos indiretos: afastamento do trabalho 2-6 meses.
8. Vou desenvolver artrose no joelho por causa dessa lesão?
RISCO EXISTE, MAS GRAU É INCERTO. Estudos de longo prazo (>10 anos) são limitados. Luxação patelar causa lesões condrais em 30-90% dos casos – estas podem evoluir para artrose. Episódios recorrentes aumentam risco. Instabilidade crônica também sobrecarrega cartilagem. Tratamento adequado (estabilizar patela) pode reduzir, mas não eliminar risco. Acompanhamento prolongado é prudente.
9. Posso fazer o tratamento conservador e operar depois se não funcionar?
SIM, E É ESTRATÉGIA COMUM. Maioria dos protocolos recomenda tentar conservador primeiro (exceto se fatores anatômicos severos). Se falhar após 6 meses bem executados, cirurgia permanece opção. Esperar não piora prognóstico cirúrgico, exceto se luxações repetidas causarem lesões condrais progressivas. Comunicar bem com equipe sobre instabilidade persistente.
10. Tem algum exame que prevê se vou precisar de cirurgia?
PARCIALMENTE. Alguns achados de imagem predizem maior risco de falha conservadora:
- Displasia troclear grau C ou D (Dejour)
- Patela alta (Caton-Deschamps >1.3)
- TT-TG >20mm
- Lesões condrais extensas
Porém, nenhum achado isolado garante falha conservadora. Combinação de múltiplos fatores de risco aumenta probabilidade. Decisão deve integrar: anatomia + sintomas + demanda funcional + capacidade de reabilitação.
Como Tomar uma Decisão Informada
Perguntas Essenciais Para Seu Médico
Sobre seu caso específico:
- Quais fatores de risco anatômicos tenho? (displasia, patela alta, desalinhamento)
- Qual a probabilidade realista de sucesso conservador no MEU caso?
- Se operar, qual técnica e por quê? Quais alternativas?
- Quantas cirurgias de LPFM você já fez? Quais seus resultados?
- O que define “sucesso” – ausência de luxação ou retorno ao esporte?
Sobre expectativas:
- Tempo realista até retorno às minhas atividades?
- Qual porcentagem de seus pacientes retorna ao mesmo nível esportivo?
- Quais as chances de eu precisar de cirurgia adicional futura?
- Que tipo de limitações permanentes posso ter?
- Como será minha qualidade de vida em 5-10 anos?
Checklist de Decisão
Antes de optar pelo tratamento conservador, confirme:
- [ ] Tenho acesso a fisioterapia especializada de qualidade?
- [ ] Estou disposto a seguir protocolo rigoroso por 6+ meses?
- [ ] Meus fatores anatômicos não são severos (confirmado por exames)?
- [ ] Posso modificar/pausar atividades de risco durante recuperação?
- [ ] Entendo que há 20-40% de chance de re-luxação?
Antes de optar pela cirurgia, confirme:
- [ ] Tentei tratamento conservador adequado OU tenho fatores de risco severos?
- [ ] Cirurgião experiente (mínimo 20-30 casos/ano)?
- [ ] Entendo técnica proposta e por que foi escolhida?
- [ ] Posso me afastar de trabalho/estudo por 2-4 meses?
- [ ] Tenho suporte para reabilitação pós-operatória (6-9 meses)?
- [ ] Expectativas são realistas (não garantia de cura)?
Sinais de Alerta em Profissionais
🚩 Desconfie de quem:
- Indica cirurgia imediata após primeira luxação sem avaliar anatomia
- Não discute opções conservadoras ou minimiza sua eficácia
- Promete “volta ao normal” ou “garantia de não luxar mais”
- Pressiona decisão rápida sem tempo para segunda opinião
- Não explica claramente técnica e evidências
- Tem conflito de interesse não declarado (implantes, clínicas)
Busque Profissionais Que:
✅ Valorize quem:
- Avalia fatores anatômicos sistematicamente (exames com medidas)
- Discute prós/contras de conservador E cirúrgico honestamente
- Adapta recomendação ao SEU perfil (anatomia + função + objetivos)
- Admite incertezas e áreas sem consenso científico
- Tem experiência documentada e compartilha resultados
- Trabalha em equipe (ortopedista + fisioterapeuta)
- Respeita tempo para decisão e encoraja segunda opinião
Conclusão: Sobre Ruptura do LPFM
A ruptura do ligamento patelofemoral medial é uma lesão comum, tratável, mas com resultados variáveis que dependem tanto da anatomia individual quanto das escolhas de tratamento.
O Que a Ciência Estabeleceu
✓ LPFM é principal estabilizador patelar – 50-60% da resistência à luxação
✓ 60-80% das primeiras luxações melhoram sem cirurgia – se reabilitação adequada
✓ Fatores anatômicos são determinantes – displasia/patela alta aumentam falha conservadora
✓ Cirurgia reduz mas não elimina re-luxação – 8% média vs 20-40% conservador
✓ Retorno ao esporte leva 6-9 meses – independente do tratamento escolhido
✓ 15-35% não retornam ao mesmo nível – mesmo com cirurgia bem-sucedida
Áreas de Incerteza Persistente
? Cirurgia de rotina após primeira luxação – benefício não comprovado
? Qual técnica cirúrgica é superior – >15 técnicas, sem consenso claro
? Momento ideal da cirurgia – agudo vs após falha conservadora
? Risco real de artrose a longo prazo – dados >10 anos escassos
? Preditores confiáveis de sucesso – modelos prognósticos ainda imprecisos
Suas Melhores Estratégias
Se você teve primeira luxação:
- Avalie anatomia completa – RM + medidas precisas (TT-TG, Caton-Deschamps, Dejour)
- Tente conservador se anatomia permitir – 60-80% de sucesso com programa sério
- Fisioterapia é ESSENCIAL – não opcional, mesmo se optar por cirurgia depois
- Reavalie em 3-6 meses – se instabilidade persistir, reconsidere cirurgia
Se você teve múltiplas luxações:
- Cirurgia provavelmente necessária – conservador já falhou ou anatomia desfavorável
- Corrija fatores anatômicos – reconstrução + osteotomias se desalinhamento
- Escolha cirurgião experiente – curva de aprendizado é real
- Prepare-se para recuperação longa – 6-9 meses é realista, não pessimista
Se você tem displasia severa/patela alta:
- Conservador tem menor chance – mas ainda pode valer tentativa
- Cirurgia mais complexa pode ser necessária – procedimentos adicionais
- Segunda opinião é prudente – casos complexos beneficiam de múltiplas perspectivas
Mensagem Final
Não existe solução perfeita ou garantida para ruptura do LPFM. Tanto tratamento conservador quanto cirúrgico têm taxas de falha – a questão é identificar qual tem melhor relação risco-benefício para SEU caso específico.
Verdades inconvenientes que você precisa saber:
- Não há como “voltar ao normal” completamente – algo mudou no seu joelho
- Reabilitação é longa e trabalhosa – não há atalhos
- Cirurgia não é mágica – exige tanto ou mais empenho pós-operatório
- Alguns nunca retornam ao esporte de alto nível – e está tudo bem reajustar objetivos
Mas também há esperança:
- Maioria das pessoas volta a atividades significativas
- Tratamento adequado reduz substancialmente risco de luxações futuras
- Conhecimento sobre seus fatores de risco permite decisões mais acertadas
- Tecnologia cirúrgica melhorou drasticamente na última década
O mais importante: você é protagonista desta decisão. Use este conhecimento para fazer perguntas melhores, questionar recomendações vagas e escolher o caminho que faz sentido para SUA anatomia, SEUS objetivos e SUA vida.
Referências Científicas
- Gravesen KS, Kallemose T, et al. High incidence of acute and recurrent patellar dislocations: a retrospective nationwide epidemiological study involving 24,154 primary dislocations. Knee Surgery, Sports Traumatology, Arthroscopy. 2018;26(4):1204-1209.
DOI: 10.1007/s00167-017-4594-7
Acesso: Fechado | Conflito: Não declarado
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28646382/ - Longo UG, Ciuffreda M, et al. Treatment of Primary Acute Patellar Dislocation: Systematic Review and Quantitative Synthesis of the Literature. Clinical Journal of Sport Medicine. 2017;27(6):511-523.
DOI: 10.1097/JSM.0000000000000410
Acesso: Fechado | Conflito: Não declarado
https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/28107220/ - Shah JN, Howard JS, et al. A systematic review of complications and failures associated with medial patellofemoral ligament reconstruction for recurrent patellar dislocation. American Journal of Sports Medicine. 2012;40(8):1916-1923.
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Acesso: Aberto | Conflito: Financiado por grants de pesquisa suecos
https://journals.sagepub.com/doi/10.1177/0363546518770616
Última atualização: 05 de outubro de 2025
Próxima revisão programada: Abril de 2026
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