Como Tratar Dor no Calcanhar- Fasceíte Plantar: Evidências e Alternativas [2025]

o pé de uma pessoa dolorido por causa da Fasceíte Plantar

O Que Você Precisa Saber

  • Realidade importante: Cerca de 80% dos casos melhoram em 12 meses com tratamento conservador apropriado – muito mais do que sem tratamento
  • Alongamento tem melhor evidência: Exercícios de alongamento da fáscia plantar combinados com educação mostraram os melhores resultados em estudos robustos
  • O que pode ajudar: Alongamento específico, fortalecimento de panturrilha, calçados adequados e redução temporária de carga têm suporte científico moderado
  • O que tem evidência limitada: Ondas de choque têm alguma evidência mas estudos são de qualidade variável; infiltrações oferecem alívio temporário mas não mudam o curso da doença
  • Cirurgia raramente necessária: Apenas 5-10% dos casos precisam de intervenção cirúrgica, geralmente após 12+ meses de sintomas persistentes
  • Tratamento conservador vale a pena: Exercícios simples e modificações de atividade aceleram a recuperação comparado a não fazer nada

Introdução: A Frustração da Dor Matinal no Calcanhar

Uma mulher sentindo dor no calcanhar ao caminhar por causa da Fasceíte Plantar

Você conhece essa cena: acorda, coloca o pé no chão, e uma facada atravessa seu calcanhar. Os primeiros passos são tortura. Depois de alguns minutos andando, melhora um pouco. Mas volta a doer após ficar muito tempo em pé ou ao final do dia.

“É fasceíte plantar”, diz o médico. Ou fascite. Ou fasciose. Cada profissional parece usar um nome diferente (vamos explicar por quê). E então começam as recomendações: palmilha, gelo, alongamento, anti-inflamatório, onda de choque, infiltração… Você tenta tudo e a dor continua.

Aqui vai uma verdade que pode parecer desanimadora mas é na verdade libertadora: fasceíte plantar leva tempo para curar, mas a grande maioria melhora. A ciência mostra que tratamentos conservadores bem conduzidos aceleram a recuperação comparado a não fazer nada, mas não há cura milagrosa em semanas.

Isso significa que você está condenado a sofrer? Não. Mas significa que você precisa de expectativas realistas e estratégia baseada no que realmente tem evidência, não em promessas vazias de cura rápida.

Neste artigo, vou te mostrar exatamente o que a ciência diz (e não diz) sobre cada tratamento disponível. Prepare-se para descobrir que alguns tratamentos populares têm evidência diferente do que você imagina.

O Que a Ciência Diz Sobre Fasceíte Plantar?

Terminologia: Fasceíte, Fascite ou Fasciose?

Primeiro, vamos esclarecer a confusão de nomes. Tradicionalmente chamada de “fascite” (inflamação da fáscia), estudos histológicos modernos mostram que raramente há inflamação verdadeira. O tecido apresenta degeneração colágena, não inflamação aguda. Por isso, o termo correto seria “fasciose” ou “fasciopatia”.

Mas “fasceíte plantar” ainda é o termo mais usado clinicamente e o que pacientes procuram, então vamos usá-lo aqui – sabendo que o nome não reflete exatamente a fisiopatologia.

História Natural: O Que Acontece Com e Sem Tratamento?

Dados mais importantes que você precisa saber:

COM tratamento conservador apropriado:

  • Trojian & Tucker (2019) relatam que 80% dos pacientes melhoram em 12 meses com tratamento conservador
  • StatPearls (2024) menciona que cerca de 75% resolvem em 12 meses com cuidados apropriados
  • American Academy of Family Physicians (2019) confirma taxa de melhora de 80% em 12 meses

SEM tratamento ou tratamento inadequado: Hansen et al. (2018) acompanharam 174 pacientes por 15 anos e encontraram persistência preocupante de sintomas:

  • 80.5% ainda eram sintomáticos após 1 ano
  • 50% ainda sintomáticos após 5 anos
  • 44% ainda sintomáticos após 15 anos

O que isso significa? Tratamento conservador BEM FEITO realmente faz diferença. Não é apenas “esperar passar” – é seguir um protocolo que acelera significativamente a recuperação.

Evidências Para Tratamentos Comuns

Alongamento da fáscia plantar (MELHOR EVIDÊNCIA):

Morrissey et al. (2021), em estudo robusto publicado no British Journal of Sports Medicine, demonstraram que a combinação de:

  • Alongamento específico da fáscia plantar
  • Taping
  • Educação do paciente

Produziu efeito grande no alívio da dor no curto prazo (SMD 1.21). Este é o tratamento com a evidência mais robusta atualmente disponível.

O alongamento deve ser feito com o joelho estendido, puxando os dedos em direção à canela, mantendo por 10 segundos, repetindo 10 vezes, 3 vezes ao dia.

Exercícios de fortalecimento (EVIDÊNCIA MODERADA):

Rathleff et al. (2015) mostraram que exercícios de fortalecimento de alta carga da panturrilha (toe raises lentos e controlados) foram superiores ao alongamento isolado em 3 meses de acompanhamento.

Importante: Enquanto Morrissey 2021 enfatiza alongamento como base, Rathleff 2015 sugere que fortalecimento pode ser complementar ou alternativa. Mais estudos são necessários para definir qual abordagem é superior, mas ambas têm algum suporte científico.

Órteses e palmilhas (EVIDÊNCIA MODERADA, EFEITO PEQUENO):

Whittaker et al. (2018), em revisão sistemática publicada no British Journal of Sports Medicine (não Cochrane), analisaram 19 estudos com 1.660 participantes e encontraram:

  • Evidência de qualidade moderada que palmilhas reduzem dor no médio prazo
  • Efeito pequeno mas estatisticamente significativo (SMD -0.27)
  • Não há diferença significativa entre palmilhas customizadas e pré-fabricadas

Conclusão prática: Palmilhas podem ajudar modestamente. Se você for experimentar, comece com pré-fabricadas (mais baratas) antes de investir em customizadas caras.

Anti-inflamatórios (AINEs):

Evidência de benefício é fraca e de curto prazo. Como fasceíte não é processo inflamatório verdadeiro, faz sentido que anti-inflamatórios tenham efeito limitado. Podem ajudar no alívio sintomático nas primeiras semanas, mas não alteram o curso da doença.

Infiltração de corticóide (ALÍVIO TEMPORÁRIO, NÃO CURA):

David et al. (2017), em revisão Cochrane, encontraram:

  • Evidência de baixa qualidade para infiltração de corticóide
  • Melhora da dor no curto prazo comparado a placebo
  • Efeitos de longo prazo incertos

Riscos documentados:

  • Ruptura de fáscia plantar: 2-5% dos casos segundo diversos estudos
  • Atrofia do coxim adiposo do calcanhar (pode causar dor crônica)
  • Benefício apenas temporário (4-8 semanas geralmente)

Quando considerar: Apenas para alívio temporário em situações específicas (evento importante), não como tratamento de longo prazo. Limite a 1-2 infiltrações.

Ondas de choque extracorpóreas (EVIDÊNCIA DE QUALIDADE VARIÁVEL):

Aqui a evidência é complexa:

  • Guimarães et al. (2023) avaliaram 236 estudos sobre TODAS as intervenções para fasceíte plantar e concluíram que ondas de choque foram a única modalidade com eficácia demonstrada no médio e longo prazo
  • Li et al. (2018), em network meta-análise, mostraram que ondas de choque foram superiores a placebo

Limitações importantes:

  • Qualidade dos estudos varia consideravelmente
  • Protocolos diferem muito entre estudos
  • Estudos financiados por fabricantes tendem a mostrar melhores resultados
  • Alto custo e disponibilidade limitada

Conclusão: Ondas de choque têm alguma evidência de eficácia, mas qualidade metodológica dos estudos é preocupação. Considere após falha de tratamentos conservadores mais simples.

Cirurgia (liberação da fáscia plantar):

Reservada para casos refratários (12+ meses sem melhora). Taxa de sucesso: 70-85%, mas com risco de complicações (6-12%) incluindo fraqueza do arco, neuroma e dor persistente. Deve ser último recurso.

Evidências Contrárias e Lacunas Importantes

Problema metodológico grave:

Rhim et al. (2021) analisaram 96 revisões sistemáticas sobre fasceíte plantar e descobriram que:

  • 75% tinham qualidade criticamente baixa segundo critérios AMSTAR2
  • Problemas incluem: falta de registro de protocolo, busca incompleta, não avaliação adequada de viés

Isso significa que devemos interpretar com cautela até mesmo revisões sistemáticas sobre este tema.

Viés de publicação:

Análise de registros de estudos mostrou que estudos com resultados negativos para tratamentos caros (ondas de choque, PRP) são significativamente menos prováveis de serem publicados.

Definição inconsistente de “sucesso”:

Alguns estudos consideram sucesso “redução de 30% na dor”, outros “50%”, outros “retorno às atividades”. Isso dificulta comparações e pode superestimar eficácia.

Por Que Tanta Divergência nos Resultados da Fasceíte Plantar?

1. História natural favorável confunde interpretação:

Quando muitos melhoram com o tempo, pode ser difícil separar efeito do tratamento do curso natural. Mas estudos mostram que tratamento apropriado ACELERA a recuperação comparado a não fazer nada (veja dados de Hansen 2018 vs Trojian 2019).

2. Efeito placebo é poderoso:

Para dor musculoesquelética, placebo pode produzir melhora de 30-40%. Tratamentos impressionantes (máquinas caras, injeções) têm efeito placebo maior.

3. Conflitos de interesse abundantes:

Estudos sobre ondas de choque frequentemente são financiados por fabricantes. Estudos sobre palmilhas, por empresas de órteses. Resultados tendem a favorecer o financiador.

4. Heterogeneidade de pacientes:

“Fasceíte plantar” provavelmente engloba várias condições com causas distintas. O que funciona para um subtipo pode não funcionar para outro.

5. Falta de biomarcadores:

Não sabemos predizer quem vai melhorar rápido, quem vai cronificar, ou quem responderá a qual tratamento. Tudo é tentativa e erro.

Como Fasceíte Plantar Funciona ?

Fisiopatologia Atual

Contrário à crença popular, não é simples inflamação. Estudos histológicos mostram:

Degeneração do colágeno:

Fáscia plantar apresenta desorganização das fibras colágenas, necrose mucoide (degeneração do tecido) e neovascularização (formação de novos vasos sanguíneos pequenos e frágeis).

É sobre capacidade de carga:

A teoria mais aceita atualmente é que a fáscia simplesmente não está suportando a carga mecânica imposta. Pode ser por:

  • Aumento súbito de atividade
  • Excesso de peso corporal
  • Calçados inadequados
  • Fraqueza muscular intrínseca do pé
  • Biomecânica desfavorável

Sensibilização do sistema nervoso:

Em casos crônicos, pode haver sensibilização central – o sistema nervoso amplifica sinais de dor mesmo quando tecido já está se recuperando.

Por Que a Fasceíte PlantarDói Mais ao Acordar?

Durante a noite, o pé fica em flexão plantar (ponta do pé para baixo), permitindo “encurtamento” relativo da fáscia. Ao colocar peso nos primeiros passos, há alongamento súbito que causa dor. Depois de alguns minutos, o tecido “aquece” e dor diminui.

Isso explica por que splints noturnos (que mantêm pé em dorsiflexão) teoricamente ajudariam. Mas estudos mostram benefícios mínimos e desconfortáveis – maioria dos pacientes não tolera usar.

Riscos e Considerações Importantes de Cada Tratamento

Infiltração de Corticóide

Riscos documentados:

  • Ruptura de fáscia plantar: 2-5% dos casos
  • Atrofia do coxim adiposo do calcanhar: pode causar dor crônica permanente
  • Benefício apenas temporário (4-8 semanas)
  • Risco aumenta com infiltrações repetidas

Quando considerar:

Apenas para alívio temporário em eventos específicos (casamento, viagem importante) quando dor é incapacitante. Não para tratamento de longo prazo.

Ondas de Choque

Riscos físicos baixos:

  • Dor durante aplicação (pode ser intensa)
  • Equimoses e inchaço temporário
  • Raramente: lesão nervosa

Consideração custo-benefício:

Custo elevado (R$ 1.500-3.000) deve ser pesado contra alongamento (gratuito) que tem evidência robusta. Considere ondas de choque após falha de 6 meses de tratamento conservador bem feito.

Cirurgia

Riscos significativos:

  • Fraqueza do arco longitudinal (25-30% dos casos)
  • Dor lateral persistente
  • Neuromas (crescimento anormal de nervo)
  • Taxa de insatisfação: 10-20%
  • Recuperação: 6-12 semanas sem apoio total

Indicação apropriada:

Apenas após 12+ meses de tratamento conservador bem conduzido, sintomas incapacitantes persistentes, e expectativas realistas sobre recuperação.

Exercícios Intensivos

Possíveis problemas:

  • Exacerbação temporária da dor (comum nas primeiras 2 semanas)
  • Se mal dosados, podem piorar quadro
  • Exigem consistência (difícil de manter)

Como minimizar:

Progressão gradual, ajuste de carga conforme tolerância, supervisão inicial de fisioterapeuta.

Para Quem Cada Tratamento Funciona Melhor?

Um fisioterapeuta avaliando o pé do paciente com fasceíte plantar

Quem Tem Melhor Prognóstico Geral

Fatores favoráveis:

  • Sintomas há menos de 6 meses
  • IMC < 30
  • Sem doenças sistêmicas (diabetes, artrite)
  • Dor unilateral
  • Atividade desencadeante clara e modificável
  • Sem comprometimento neurológico

Fatores de mau prognóstico:

  • Sintomas há mais de 12 meses
  • Obesidade significativa
  • Diabetes
  • Trabalho que exige ficar em pé longos períodos
  • Dor bilateral
  • Múltiplos tratamentos prévios falhos

Estratificação de Tratamento por Fase

Fase aguda (0-6 semanas):

  • Redução temporária de carga
  • Calçado com suporte adequado
  • Anti-inflamatório curto prazo se dor intensa
  • Gelo após atividades
  • Início GRADUAL de alongamento da fáscia plantar

Fase subaguda (6 semanas – 6 meses):

  • Foco em alongamento progressivo da fáscia plantar e panturrilha
  • Adicionar exercícios de fortalecimento se tolerado
  • Retorno gradual às atividades
  • Palmilha se proporcionar conforto
  • Considerar fisioterapia para educação e progressão

Fase crônica (> 6 meses):

  • Reavaliação diagnóstica (pode não ser fasceíte)
  • Programa intensivo de alongamento + fortalecimento
  • Considerar ondas de choque se outros métodos falharam
  • Avaliar fatores psicossociais (catastrofização, cinesiofobia)
  • Cirurgia apenas se > 12 meses e incapacitante

Tratamentos da Fasceíte Plantar Que Você Pode Fazer Sozinho

Exercícios Com Melhor Suporte Científico

1. Alongamento da fáscia plantar (EVIDÊNCIA FORTE):

  • Sentado, cruze o pé afetado sobre o joelho oposto
  • Com a mão, puxe os dedos do pé em direção à canela
  • Mantenha o joelho ESTENDIDO
  • Segure por 10 segundos
  • 10 repetições, 3 vezes ao dia
  • Evidência: FORTE (Morrissey 2021)

2. Alongamento da panturrilha:

  • Pé afetado atrás, perna estendida
  • Pé da frente flexionado
  • Incline-se para frente mantendo calcanhar de trás no chão
  • Segure 30 segundos
  • 3 repetições, 2-3 vezes ao dia
  • Evidência: MODERADA

3. Fortalecimento de panturrilha em carga (EVIDÊNCIA MODERADA):

  • Subir na ponta dos pés (ambos os pés)
  • Descer lentamente em um pé só (com o pé afetado)
  • 3 séries de 15 repetições
  • 2x ao dia
  • Progresso lento e controlado
  • Evidência: MODERADA (Rathleff 2015)

4. Massagem com bola:

  • Rolar bola de tênis sob arco do pé
  • Pressão moderada
  • 2-3 minutos
  • Pode aliviar sintomas temporariamente
  • Evidência: BAIXA, mas baixo risco e pode confortar

Modificações de Calçado (Evidência Moderada)

O que funciona:

  • Calçados com drop moderado (diferença de 8-10mm entre calcanhar e antepé)
  • Sola com amortecimento adequado
  • Suporte de arco mínimo a moderado
  • Evitar andar descalço em superfícies duras

O que NÃO tem evidência:

  • Calçados minimalistas ou “barefoot” (podem piorar)
  • Sandálias ortopédicas caríssimas (não superiores a calçados adequados convencionais)
  • Chinelos com arco acentuado (desconfortáveis e sem evidência clara)

Redução de Peso (Se Aplicável)

Perda de 5-10% do peso corporal mostra correlação com melhora dos sintomas em estudos observacionais. Não é tratamento direto, mas fator contributivo importante se você está acima do peso.

Alternativas e Abordagens Realistas para a Fasceíte Plantar

fisioterapeuta tratando uma Fasceíte Plantar

O Que Tem Evidência Robusta

Alongamento + educação + taping (PRIMEIRA LINHA):

Segundo Morrissey 2021, esta é a combinação com melhor evidência. Fisioterapeuta pode ensinar técnica correta de alongamento, aplicar taping e educar sobre progressão de atividades.

Programa de exercícios domiciliares supervisionados:

Fisioterapeuta ensina execução correta de alongamento e fortalecimento, você faz em casa. Custo-benefício superior a sessões intermináveis de fisioterapia passiva.

Tratamento de fatores contribuintes:

Se você tem diabetes mal controlado, otimize controle glicêmico. Se usa calçados inadequados no trabalho, troque. Se ganhou peso recentemente, trabalhe nisso. Tratar causas subjacentes pode ser tão ou mais eficaz que tratar sintoma.

Abordagens Integrativas Sensatas

Combinação razoável baseada em evidência:

  1. Alongamento da fáscia plantar (base do tratamento – evidência forte)
  2. Alongamento da panturrilha
  3. Fortalecimento progressivo quando tolerado
  4. Taping (aplicado por profissional)
  5. Educação sobre progressão de atividades
  6. Calçado adequado
  7. Ajuste de carga temporário
  8. Anti-inflamatório curto prazo apenas se dor aguda intensa

Quando considerar tratamentos mais invasivos:

Apenas após 6+ meses de abordagem conservadora BEM CONDUZIDA (não apenas “esperar passar”), sem melhora, e sintomas significativamente incapacitantes.

O Que NÃO Vale a Pena (Evidência Insuficiente)

  • Suplementos (colágeno, vitaminas): sem evidência específica para fasceíte
  • Acupuntura: evidência de baixa qualidade, efeito similar a placebo
  • Laser de baixa intensidade: evidência fraca e conflitante
  • PRP (plasma rico em plaquetas): estudos mostram resultados não superiores a placebo
  • Dry needling: evidência insuficiente
  • Kinesio taping sozinho: pode dar sensação de suporte, mas sem efeito na recuperação (diferente do taping rígido usado por Morrissey)

FAQ: Perguntas Honestas, Respostas Diretas

Fasceíte plantar tem cura ou é para sempre?

SIM, tem cura. Cerca de 80% dos casos resolvem em 12 meses com tratamento conservador apropriado. Apenas 5-10% cronificam. Mas “cura” não significa rápido – expectativa realista é meses, não semanas.

Qual o melhor tratamento segundo a ciência?

Alongamento específico da fáscia plantar combinado com educação e taping tem a evidência mais robusta (Morrissey 2021). Fortalecimento tem evidência moderada. Estes devem ser a base do tratamento antes de considerar opções mais caras ou invasivas.

Palmilha ortopédica funciona?

DEPENDE do que você espera. Estudos mostram efeito pequeno mas real na redução da dor. Palmilhas pré-fabricadas são tão eficazes quanto customizadas caras. Podem proporcionar conforto, mas não aceleram muito a recuperação. Experimente pré-fabricadas primeiro.

Devo fazer infiltração de corticóide?

DEPENDE. Se você tem evento importante em 2-4 semanas e dor está incapacitante, pode ser opção para alívio temporário. Mas não é solução de longo prazo, tem riscos (ruptura de fáscia 2-5%, atrofia de gordura do calcanhar), e não acelera recuperação.

Ondas de choque vale o investimento?

DEPENDE DA SITUAÇÃO. Tem alguma evidência de eficácia, mas qualidade dos estudos varia. Custo (R$ 1.500-3.000) é alto. Recomendação: primeiro tente 6 meses de alongamento + fortalecimento + ajustes de calçado (praticamente gratuito). Se não melhorar, considere ondas de choque.

Posso fazer exercícios mesmo com dor?

SIM. Dor leve a moderada durante exercícios de alongamento (até 5/10) é aceitável e esperada. Regra: se dor não piora progressivamente e volta ao nível basal em 24h, você pode continuar. Se piora muito ou persiste, reduza intensidade.

Quanto tempo até melhorar?

REALISTA com tratamento conservador apropriado:

  • 3-6 meses para melhora significativa
  • 9-18 meses para resolução completa
  • SEM tratamento adequado: pode persistir por anos (veja dados de Hansen 2018)

Quem promete “cura em 4 semanas” está ignorando evidências ou vendendo algo.

Preciso parar de correr/caminhar completamente?

NÃO necessariamente. Redução temporária de volume/intensidade é sensata, mas imobilização total não é recomendada. Ajuste atividade para nível tolerável e aumente gradualmente conforme melhora. Continue com alongamento mesmo nos dias de descanso.

Alongamento é melhor que fortalecimento?

A evidência atual sugere que alongamento tem suporte mais robusto (Morrissey 2021 – efeito grande). Fortalecimento mostrou resultados promissores em alguns estudos (Rathleff 2015). Melhor abordagem: começar com alongamento como base, adicionar fortalecimento como complemento quando tolerado.

Conclusão: Expectativas Realistas e Tratamento Ativo da Fasceíte Plantar

Fasceíte plantar é condição frustrante que exige paciência, mas temos tratamentos com evidência real de eficácia. A ciência mostra claramente:

O que sabemos:

  • Tratamento conservador apropriado acelera recuperação – 80% melhoram em 12 meses vs 80% AINDA sintomáticos sem tratamento
  • Alongamento da fáscia plantar tem a melhor evidência (efeito grande – Morrissey 2021)
  • Fortalecimento tem evidência moderada como complemento ou alternativa
  • Fatores modificáveis (peso, calçado, carga) realmente importam

O que não sabemos:

  • Por que alguns cronificam e outros não
  • Qual protocolo específico funciona melhor para qual subtipo
  • Como predizer resposta individual a tratamentos

Armadilhas a evitar:

  • Busca por “cura rápida” pulando alongamento básico para tratamentos caros
  • Infiltrações repetidas de corticóide (risco de ruptura e atrofia)
  • Dependência de tratamentos passivos sem fazer exercícios ativos
  • Expectativas irrealistas de resolução em semanas
  • Achar que “não fazer nada” é equivalente a tratamento ativo

Abordagem sensata baseada em evidência:

  1. Comece com o que tem melhor evidência – alongamento da fáscia plantar (3x/dia, todo dia)
  2. Adicione educação – entenda a condição, expectativas realistas, progressão gradual
  3. Use taping se tiver acesso a fisioterapeuta
  4. Faça ajustes práticos – calçado adequado, redução temporária de carga
  5. Adicione fortalecimento quando alongamento estiver confortável
  6. Seja consistente – exercícios funcionam se feitos regularmente por meses
  7. Trate fatores subjacentes – peso, diabetes, biomecânica do trabalho
  8. Palmilhas pré-fabricadas se quiser conforto extra (não espere milagre)
  9. Considere tratamentos caros/invasivos apenas após 6-12 meses de conservador BEM FEITO

A diferença entre “esperar passar” e tratamento ativo:

Hansen (2018) mostrou que 80% ainda tinham sintomas após 1 ano quando não tratados adequadamente. Trojian (2019) mostrou que 80% melhoram em 12 meses COM tratamento apropriado. A diferença está em FAZER o tratamento conservador, não apenas esperar.

Mensagem final:

Fasceíte plantar testa sua paciência e consistência. Não há atalho. Mas HÁ tratamentos que funcionam – alongamento sistemático da fáscia plantar, progressão gradual de fortalecimento, ajustes de carga e calçado.

Para 80% das pessoas que fazem o tratamento apropriado, ela vai embora em 12 meses. Para os outros 20%, pode demorar mais ou requerer tratamentos adicionais. Mas desistir do básico para pular para tratamentos caros raramente é a solução.

Comece com alongamento hoje. Seja consistente. Tenha paciência. A evidência está do seu lado.


Referências Científicas

  1. Morrissey D, et al. “Management of plantar heel pain: a best practice guide informed by a systematic review, expert clinical reasoning and patient values.” British Journal of Sports Medicine. 2021;55(19):1106-1118. DOI: 10.1136/bjsports-2019-101970 Acesso: Aberto (link alternativo PubMed) | Conflito: Nenhum declarado
  2. Hansen L, et al. “Long-Term Prognosis of Plantar Fasciitis: A 5-, 8-, and 15-Year Follow-up Study.” Orthopaedic Journal of Sports Medicine. 2018;6(3). DOI: 10.1177/2325967118757983 Acesso: Aberto | Conflito: Nenhum
  3. Trojian T, Tucker AK. “Plantar Fasciitis.” American Family Physician. 2019;99(12):744-750. PMID: 31194492 Acesso: Aberto | Conflito: Nenhum
  4. Whittaker GA, et al. “Foot orthoses for plantar heel pain: a systematic review and meta-analysis.” British Journal of Sports Medicine. 2018;52(5):322-328. DOI: 10.1136/bjsports-2016-097355 Acesso: Aberto | Conflito: Nenhum
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  7. Guimarães JS, et al. “Effects of therapeutic interventions on pain due to plantar fasciitis: A systematic review and meta-analysis.” Clinical Rehabilitation. 2023;37(6):727-746. DOI: 10.1177/02692155221143865 Acesso: Fechado | Conflito: Nenhum declarado
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  9. Rathleff MS, et al. “High-load strength training improves outcome in patients with plantar fasciitis: A randomized controlled trial with 12-month follow-up.” Scandinavian Journal of Medicine & Science in Sports. 2015;25(3):e292-300. DOI: 10.1111/sms.12313 Acesso: Fechado | Conflito: Nenhum declarado
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  12. American Academy of Family Physicians. “Plantar Fasciitis and Bone Spurs.” AFP Clinical Guidelines. 2019. Disponível em:https://www.aafp.org/pubs/afp/issues/2019/0615/p744.html Acesso: Aberto | Conflito: N/A

Última atualização: Janeiro 2025
Conflitos de interesse: O autor não possui vínculos comerciais com clínicas, fabricantes de órteses, equipamentos ou serviços mencionados
Nota de transparência: Este artigo foi escrito para empoderar pacientes com informação baseada em evidências, não para promover ou desencorajar tratamentos específicos. Todas as afirmações foram verificadas contra fontes primárias.



⚠️ AVISO IMPORTANTE

Dor no calcanhar pode ter outras causas além de fasceíte plantar (neuroma de Baxter, fratura de estresse, artrite, síndrome do túnel do tarso, bursite calcânea, atrofia do coxim adiposo). Este conteúdo é educativo e não substitui avaliação diagnóstica apropriada.

Procure atendimento médico se você tem:

  • Dor persistente por mais de 2 semanas sem melhora
  • Febre associada à dor no calcanhar
  • Vermelhidão ou inchaço significativo
  • Sintomas neurológicos (formigamento, dormência, fraqueza)
  • Dor que piora progressivamente mesmo com repouso
  • História de trauma recente
  • Incapacidade de suportar peso no pé

Sempre consulte profissional qualificado antes de iniciar tratamentos. Este artigo não substitui consulta médica ou fisioterapêutica individualizada.


Sobre a Metodologia Deste Artigo

Processo de verificação:

  1. Todas as afirmações quantitativas foram verificadas contra fontes primárias
  2. Referências foram acessadas e lidas na íntegra quando disponíveis
  3. Discrepâncias entre afirmações e fontes foram identificadas e corrigidas
  4. Qualidade das evidências foi avaliada (forte, moderada, baixa, insuficiente)
  5. Conflitos de interesse dos estudos foram verificados e reportados

Limitações reconhecidas:

  • Algumas referências estão em acesso fechado (indicado onde aplicável)
  • Campo em evolução – novas evidências podem surgir
  • Heterogeneidade de estudos dificulta conclusões definitivas
  • Artigo reflete consenso atual mas pode requerer atualizações futuras

Compromisso com precisão: Se você identificar alguma imprecisão nas informações ou citações deste artigo, por favor reporte para que possamos corrigir. A precisão científica é prioridade máxima.

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