Fisiculturismo: Estudo Aponta Risco 5x Maior

Um competidor de fisiculturismo erguendo sua cruz

Destaques

1-Estudo inédito com 20 mil atletas mostrou que o fisiculturismo competitivo está associado a um risco cinco vezes maior de morte súbita cardíaca em comparação com outras modalidades.

2-Profissionais têm risco 5,23 vezes superior aos amadores, e os competidores do Mr. Olympia exibem a taxa mais alta já registrada — 386 casos por 100 mil atletas-ano.

3-Causas cardíacas responderam por 38 % das mortes; autópsias revelaram corações aumentados e hipertrofia ventricular, frequentemente ligados ao uso de esteroides.

4-Esteroides anabolizantes foram detectados em 16 % dos casos fatais e estão relacionados a hipertensão, arritmias e remodelação cardíaca perigosa.

5-Práticas extremas de preparação — restrição hídrica, diuréticos e perda rápida de peso — elevam a sobrecarga cardíaca e o risco durante competições.

6-Impacto mental e social: a busca por um corpo ideal e a pressão competitiva aumentam o risco de distúrbios de imagem, ansiedade e comportamento autodestrutivo.

7-Fiscalização deficiente: a IFBB realiza 6 mil competições por ano, mas apenas 80 testes antidoping foram feitos — com 13 % positivos, revelando grave falha de controle.

8-Prevenção é possível: exames cardiológicos regulares, proibição de substâncias ilícitas e limites de peso em categorias podem reduzir drasticamente a mortalidade.

O Que Você Vai Aprender

Fisiculturismo: casal de atletas fazendo pose

Neste artigo, você vai descobrir informações importantes sobre os riscos de saúde associados ao fisiculturismo competitivo. Vamos explorar um estudo científico inédito que acompanhou mais de 20 mil atletas por quase uma década, revelando dados preocupantes sobre mortalidade e morte súbita cardíaca nessa população. Você entenderá quais fatores aumentam os riscos, quem está mais vulnerável e, principalmente, o que pode ser feito para tornar a prática do fisiculturismo mais segura.

Por Que Esse Tema É Importante

Nos últimos anos, as mortes prematuras de fisiculturistas famosos e influenciadores fitness têm ganhado destaque nas redes sociais, gerando preocupação na comunidade. Apesar disso, até recentemente não existiam dados científicos sólidos sobre a real dimensão desse problema. O fisiculturismo tem se tornado cada vez mais popular, influenciando milhões de pessoas que praticam musculação em academias pelo mundo. Compreender os riscos associados a essa modalidade não é apenas uma questão de interesse dos atletas profissionais, mas uma questão de saúde pública que pode afetar todos aqueles que buscam o desenvolvimento muscular extremo.

O Que Diz a Ciência

Um Estudo Sem Precedentes

Pela primeira vez na história, pesquisadores conseguiram analisar sistematicamente a taxa de mortalidade em fisiculturistas. O estudo, publicado no European Heart Journal em 2025, acompanhou 20.286 atletas masculinos que competiram em eventos da Federação Internacional de Fisiculturismo e Fitness (IFBB) entre 2005 e 2020. Com um acompanhamento médio de 8,1 anos, totalizando 190.211 atletas-ano de vigilância, este é o maior e mais abrangente estudo já realizado sobre o tema.

Durante esse período, foram identificadas 121 mortes, com uma idade média de 45,3 anos. O dado mais alarmante é que a morte súbita cardíaca foi a principal causa de morte, respondendo por 38% de todos os óbitos identificados. Isso significa que problemas cardíacos são a maior ameaça à vida dos fisiculturistas, superando todas as outras causas.

Morte Súbita Cardíaca: O Principal Risco

Entre as 121 mortes documentadas, 73 foram classificadas como mortes súbitas, das quais 46 foram especificamente identificadas como morte súbita cardíaca. A idade média desses atletas que morreram de problemas cardíacos era de apenas 42,2 anos, uma idade considerada jovem para esse tipo de evento fatal.

A incidência de morte súbita cardíaca foi calculada em 24,18 casos por 100.000 atletas-ano durante todo o período monitorado. Para colocar isso em perspectiva, essa taxa é consideravelmente mais alta do que a observada em atletas de outras modalidades esportivas e na população militar jovem, onde estudos dos últimos 30 anos mostram taxas muito mais baixas.

Profissionais em Risco Muito Maior

Um dos achados mais impactantes do estudo é a diferença brutal entre atletas profissionais e amadores. Os fisiculturistas profissionais apresentaram um risco 5,23 vezes maior de morte súbita cardíaca em comparação com os amadores. Em números absolutos, 25 atletas profissionais morreram de morte súbita cardíaca, com uma incidência de 193,63 casos por 100.000 atletas-ano, mais de 14 vezes superior à dos amadores.

Quando os pesquisadores analisaram especificamente os competidores do Mr. Olympia, a competição de maior prestígio no fisiculturismo mundial, os números foram ainda mais alarmantes. Entre os 100 atletas que participaram dessa categoria durante o período estudado, 7 morreram, incluindo 5 casos de morte súbita cardíaca confirmada ou presumida, com idade média de apenas 36 anos. A incidência de morte súbita cardíaca nesse grupo de elite chegou a impressionantes 386,10 casos por 100.000 atletas-ano.

Atletas em Atividade: Risco Ainda Maior

O estudo também analisou especificamente os atletas que estavam competindo ativamente, ou seja, aqueles que participaram de pelo menos uma competição no ano anterior à morte. Foram identificadas 27 mortes nesse grupo, incluindo 11 casos de morte súbita cardíaca com idade média de 34,7 anos.

Particularmente preocupante é o fato de que alguns desses eventos fatais ocorreram durante ou imediatamente após as competições. Um atleta teve morte súbita no próprio palco durante a competição, dois morreram durante o treinamento, e quatro atletas faleceram logo após eventos oficiais, sendo um poucas horas depois e três dentro de uma semana. A incidência de morte súbita cardíaca em atletas competindo ativamente foi de 32,83 casos por 100.000 atletas-ano.

O Que as Autópsias Revelam

Embora relatórios de autópsia completos estivessem disponíveis para apenas cinco atletas profissionais, os achados foram consistentes e reveladores. Quatro dos cinco casos apresentaram hipertrofia ventricular esquerda (espessamento excessivo do músculo cardíaco) e cardiomegalia (coração aumentado). Dois deles também tinham doença arterial coronariana, e um apresentou uma cicatriz não-isquêmica no ventrículo esquerdo.

Em três dos cinco casos em que análises toxicológicas foram realizadas, foram detectados esteroides anabolizantes androgênicos. Além disso, pelo menos 16 outros atletas que morreram tinham histórico conhecido ou testemunho direto de abuso de substâncias para melhora de desempenho.

Um estudo anterior específico sobre autópsias de fisiculturistas mostrou que a massa cardíaca média era 73,7% maior que os valores de referência normais, com a espessura do miocárdio ventricular esquerdo 125% mais espessa que o previsto. Essas alterações estruturais graves do coração estão associadas a um risco aumentado de disfunção ventricular e morte súbita cardíaca.

Outras Causas de Morte

Além das mortes cardíacas, o estudo identificou outras causas preocupantes. Eventos traumáticos como acidentes de veículo responderam por 9,1% das mortes, enquanto homicídios e suicídios representaram 3,3%. Causas não traumáticas incluíram câncer (6,6%), complicações da COVID-19 (5,8%) e falência renal ou de múltiplos órgãos (4,1%).

Um número significativo de atletas morreu por causas relacionadas aos rins. Pelo menos três dos atletas que morreram de morte súbita cardíaca tinham histórico conhecido de doença renal ou transplante renal, e um laudo de autópsia relatou nefrosclerose e hipertrofia renal. A alta ingestão de proteínas, combinada com treinamento vigoroso e desidratação intencional frequentemente obtida através do uso de diuréticos, pode exercer uma pressão significativa sobre os rins.

Diferenças Entre Categorias

O estudo também analisou as diferenças entre as categorias do fisiculturismo. A categoria “men’s bodybuilding” (fisiculturismo masculino tradicional, sem limite de peso por altura) apresentou risco cinco vezes maior de morte súbita cardíaca em comparação com a categoria “classic physique” (que tem limites de peso em relação à altura). Apenas quatro mortes foram registradas entre atletas da categoria “classic physique”, sugerindo que as limitações de peso podem ter um efeito protetor.

Quanto às faixas etárias, apenas dois atletas júnior (menores de 24 anos) morreram durante o período monitorado, e nenhum deles por morte súbita cardíaca. Embora os atletas master (acima de 40 anos) apresentassem o dobro do risco de morte por qualquer causa em comparação com os da categoria “open”, o risco de morte súbita cardíaca foi comparável entre esses grupos. A ausência de mortes súbitas cardíacas entre atletas júnior sugere que substratos predisponentes congênitos são causas improváveis, apontando para fatores adquiridos ao longo da carreira no fisiculturismo.

Quais São os Riscos e Cuidados

Atleta de fisiculturismo com uma seringa de anabolizante

O Papel dos Esteroides Anabolizantes

Embora o estudo não tenha informações sistemáticas sobre uso de substâncias em toda a amostra, achados toxicológicos ou histórico de abuso de drogas para melhora de desempenho foram identificados em aproximadamente 16% dos atletas falecidos. Isso está alinhado com relatos anteriores e com o número crescente de fisiculturistas profissionais que declararam publicamente o uso dessas substâncias.

Os esteroides anabolizantes androgênicos são as substâncias mais amplamente utilizadas no fisiculturismo, com prevalência superior a 75% entre fisiculturistas masculinos competitivos. Essas substâncias exercem diversos efeitos adversos no organismo, particularmente no sistema cardiovascular, contribuindo para um risco aumentado de morte súbita cardíaca.

Os esteroides podem causar alterações nos perfis lipídicos (colesterol e triglicerídeos), aumento dos níveis de homocisteína e do hematócrito, fatores que estão associados à formação de placas ateroscleróticas e risco elevado de doença arterial coronariana. O uso dessas substâncias também está associado à hipertensão arterial, hipertrofia ventricular, cardiomegalia e disfunção sistólica.

Além disso, os esteroides podem modificar os processos de remodelamento cardíaco, levando a fibrose anormal e contratilidade prejudicada, potencialmente predispondo indivíduos a arritmias com risco de vida e morte súbita cardíaca. Os efeitos psiquiátricos do abuso de esteroides, incluindo mudanças de humor, agressividade, depressão e ansiedade, também podem contribuir para o risco observado de suicídios e overdoses nessa população.

Treinamento Extremo e Preparação Para Competições

O fisiculturismo transcende a definição convencional de esporte competitivo, uma vez que o objetivo é a modificação estética do corpo pela maximização da massa muscular. O período de competição deve ser considerado como psicofisicamente muito exigente e ainda de risco, devido aos protocolos de preparação que envolvem procedimentos drásticos de perda de peso nas proximidades do evento, obtidos através de restrição calórica e depleção hidrossalina.

Essas práticas intensas de pré-competição impõem demandas hemodinâmicas e metabólicas significativas, que podem exacerbar doenças cardiovasculares subjacentes. O fato de que cinco atletas morreram de morte súbita cardíaca durante ou logo após um evento oficial confirma essa hipótese.

O treinamento intenso de força pode causar hipertrofia ventricular esquerda concêntrica ou excêntrica leve a moderada. No entanto, a hipertrofia concêntrica severa raramente é encontrada em atletas saudáveis e sugere um impacto do abuso de substâncias anabolizantes, coincidindo com um risco aumentado de disfunção ventricular e morte súbita cardíaca.

Impacto na Saúde Mental

É crucial reconhecer o impacto potencial do fisiculturismo na saúde mental e nos fatores psicossociais que levam a uma propensão para comportamentos de risco. A busca por atingir um físico extremo através de regimes rigorosos de treinamento e estilo de vida, associada à pressão para alcançar ideais sociais de musculosidade, pode contribuir para angústia psicológica, insatisfação corporal, e os atletas podem desenvolver ou agravar transtornos dismórficos corporais.

Essas condições psicológicas, aliadas ao potencial abuso de substâncias, podem aumentar o risco de diferentes transtornos de saúde mental e a suscetibilidade a comportamentos impulsivos ou autodestrutivos. Por isso, é essencial priorizar o bem-estar mental na comunidade do fisiculturismo, oferecendo apoio e educação para promover uma abordagem equilibrada e sustentável ao esporte.

Ausência de Controle Antidoping Efetivo

Apesar das evidências diretas e indiretas de abuso de substâncias para melhora de desempenho, a comunidade do fisiculturismo competitivo parece carecer de protocolos robustos de testes antidoping, o que criou um ambiente onde atletas expõem abertamente o uso dessas substâncias apesar dos efeitos adversos conhecidos.

A IFBB tem políticas de testes de drogas alinhadas com o Código da Agência Mundial Antidoping (WADA). No entanto, tem havido preocupações sobre essas medidas antidoping nas últimas décadas. A IFBB realiza anualmente mais de 6.000 competições, mas o relatório mais recente disponível da WADA mostra que apenas 80 amostras foram submetidas para análises de doping, resultando em 13% de achados positivos.

Essa taxa de positividade é mais de cinquenta vezes superior à relatada pela FIFA e cerca de cinco vezes superior à da Federação Internacional de Powerlifting, onde dez vezes mais amostras foram testadas. Taxas de positividade tão altas deveriam levar a respectiva federação a aumentar o número de testes. A própria WADA abordou a IFBB por não se engajar na implementação de um programa adequado de testes e não dedicar recursos suficientes ao controle de doping.

Alternativas e Dicas Práticas

Para Atletas e Praticantes de Musculação

Se você pratica musculação ou aspira se tornar um fisiculturista, é fundamental entender que o desenvolvimento muscular saudável não requer o uso de substâncias proibidas ou práticas extremas. O treinamento de força moderado e bem orientado, aliado a uma nutrição adequada, pode proporcionar ganhos significativos de massa muscular e força sem comprometer sua saúde cardiovascular.

Evite seguir protocolos de treinamento e suplementação de atletas profissionais sem orientação médica adequada. Muitos desses protocolos envolvem dosagens perigosas de substâncias e práticas que podem prejudicar seriamente sua saúde. Lembre-se de que a aparência de muitos fisiculturistas profissionais não é alcançável de forma natural e segura.

Mantenha uma hidratação adequada e evite o uso de diuréticos para alcançar uma aparência mais “definida”. A desidratação extrema pode sobrecarregar seus rins e coração, aumentando significativamente os riscos para sua saúde. Priorize sempre sua saúde em relação à estética.

A Importância do Acompanhamento Médico

Embora o fisiculturismo envolva riscos significativos, avaliações médicas regulares poderiam permitir a detecção precoce de condições cardiovasculares patológicas e potencialmente reduzir o ônus da morte súbita cardíaca. Estratégias preventivas poderiam mitigar o risco de tais eventos adversos maiores, particularmente dada a associação bem documentada entre abuso de substâncias para melhora de desempenho e risco cardiovascular aumentado.

Exames como eletrocardiograma de repouso, teste de esforço e ecocardiograma poderiam ajudar a identificar má adaptação cardíaca em fisiculturistas, como espessamento aumentado da parede, cardiomegalia e arritmias potencialmente associadas. No entanto, atualmente o fisiculturismo não envolve nenhuma avaliação específica de risco médico, e em muitos países nem é considerado uma disciplina esportiva, excluindo assim avaliações e exames médicos específicos para profissionais.

Verificações médicas regulares para atletas engajados nesta disciplina podem permitir a detecção precoce de condições cardiovasculares patológicas e potencialmente reduzir o ônus da morte súbita cardíaca. De fato, estratégias preventivas poderiam mitigar o risco de tais eventos adversos maiores.

O Que Federações e Organizadores Podem Fazer

As federações de fisiculturismo devem se tornar responsáveis por iniciar uma mudança cultural nesta disciplina esportiva. É necessário que a WADA e as associações médicas forneçam o embasamento científico e as orientem para mudar sua abordagem na promoção de uma participação esportiva mais segura.

A implementação de triagem sistemática e programas poderia contribuir significativamente para a segurança dos atletas e alinhar o fisiculturismo com outros esportes que estabeleceram estruturas de vigilância de saúde. Isso inclui a intensificação do controle antidoping, com aumento substancial no número de testes realizados e na rigorosidade das penalidades.

Além disso, é fundamental implementar exames médicos obrigatórios antes das competições, incluindo avaliações cardiológicas completas para detectar sinais precoces de problemas cardíacos. A presença de desfibriladores externos automáticos nos locais de competição e treinamento também é essencial.

Educação e Conscientização

Iniciativas educacionais direcionadas ao abuso de substâncias e suas consequências mais amplas para a saúde são fundamentais, não apenas no sistema cardiovascular, mas também no bem-estar mental. A influência de fisiculturistas profissionais e influenciadores fitness se estende além da arena competitiva, potencialmente afetando muitos atletas não profissionais e entusiastas do fitness.

É necessário que haja uma mudança cultural na forma como o fisiculturismo é praticado e promovido. Os atletas profissionais têm uma responsabilidade social de não glorificar o uso de substâncias proibidas e de ser transparentes sobre os riscos associados às práticas extremas. As redes sociais e a mídia também devem ter responsabilidade ao promover padrões corporais inatingíveis de forma natural.

Atleta de fisiculturismo mostrando os músculos das costas.

Perguntas Frequentes

O fisiculturismo é perigoso?

O estudo demonstra que o fisiculturismo competitivo, especialmente em nível profissional, apresenta riscos significativos para a saúde. A incidência de morte súbita cardíaca em fisiculturistas profissionais é consideravelmente mais alta do que em atletas de outras modalidades e na população geral. No entanto, é importante distinguir entre o fisiculturismo competitivo de alto nível e a prática regular de musculação recreativa, que quando feita de forma adequada e sem uso de substâncias proibidas, pode ser segura e benéfica para a saúde.

Posso praticar musculação com segurança?

Sim, a musculação recreativa praticada com orientação adequada, sem uso de substâncias proibidas e com acompanhamento médico regular é geralmente segura e traz diversos benefícios para a saúde. O problema identificado no estudo está relacionado principalmente às práticas extremas do fisiculturismo competitivo, especialmente em nível profissional, que frequentemente envolvem uso de esteroides anabolizantes, treinamento excessivo e protocolos drásticos de preparação para competições.

Os esteroides anabolizantes são a única causa dos problemas?

Embora os esteroides anabolizantes sejam um fator importante, não são a única causa. O estudo ressalta que é desafiador distinguir o impacto específico dessas substâncias do contexto mais amplo de abuso de substâncias e de todas as práticas restantes do fisiculturismo, incluindo cargas extremas de exercício de força e requisitos dietéticos restritivos. A combinação de todos esses fatores provavelmente contribui para o risco aumentado observado.

Todos os fisiculturistas usam esteroides?

Não há dados sistemáticos disponíveis para toda a população de fisiculturistas, mas estudos indicam que a prevalência de uso de esteroides anabolizantes entre fisiculturistas masculinos competitivos excede 75%. É importante notar que existe uma diferença significativa entre atletas amadores e profissionais, tanto em termos de uso de substâncias quanto em termos de risco de morte. Muitos praticantes recreativos de musculação não usam essas substâncias.

Qual a diferença entre atletas profissionais e amadores?

O estudo encontrou diferenças dramáticas. Fisiculturistas profissionais apresentaram um risco 5,23 vezes maior de morte súbita cardíaca em comparação com amadores. A incidência de morte súbita cardíaca em profissionais foi de 193,63 casos por 100.000 atletas-ano, mais de 14 vezes superior à dos amadores. Essa diferença provavelmente reflete a maior intensidade de treinamento, regimes dietéticos mais rigorosos e maior prevalência de uso de substâncias para melhora de desempenho entre os profissionais.

Por que o coração dos fisiculturistas fica tão aumentado?

O treinamento intenso de força pode causar hipertrofia ventricular (espessamento do músculo cardíaco) leve a moderada, o que é considerado uma adaptação normal ao exercício. No entanto, a hipertrofia concêntrica severa raramente é encontrada em atletas saudáveis e sugere um impacto do abuso de substâncias anabolizantes. O estudo sobre autópsias de fisiculturistas mostrou que a massa cardíaca média era 73,7% maior que os valores normais, com espessura do músculo cardíaco 125% mais espessa que o previsto. Essas alterações estão associadas a risco aumentado de disfunção cardíaca e morte súbita.

Existe alguma categoria mais segura no fisiculturismo?

O estudo sugere que a categoria “classic physique”, que tem limites de peso em relação à altura, apresentou risco cinco vezes menor de morte súbita cardíaca em comparação com a categoria tradicional “men’s bodybuilding”, que não tem limite de peso. Isso sugere que as limitações de peso podem ter um efeito protetor, possivelmente por desencorajar o ganho de massa muscular extrema e o uso excessivo de substâncias.

Jovens têm menos risco?

Curiosamente, o estudo não encontrou nenhuma morte súbita cardíaca entre atletas júnior (menores de 24 anos). A ausência de mortes súbitas cardíacas nesse grupo sugere que condições cardíacas congênitas não são a principal causa dos problemas observados, apontando para fatores adquiridos ao longo da carreira no fisiculturismo. Isso reforça a hipótese de que o uso prolongado de substâncias e as práticas extremas ao longo dos anos são os principais contribuintes para o risco aumentado.

O fisiculturismo é regulamentado?

Em muitos países, o fisiculturismo não é sequer considerado uma disciplina esportiva oficial, o que exclui avaliações e exames médicos específicos obrigatórios para os profissionais. Além disso, os protocolos de controle antidoping são extremamente limitados. A IFBB realiza anualmente mais de 6.000 competições, mas apenas 80 amostras foram submetidas para análises de doping no relatório mais recente da WADA, com 13% de resultados positivos, uma taxa alarmantemente alta que indica problemas sérios na política antidoping.

O que posso fazer se quero competir no fisiculturismo?

Se você deseja competir no fisiculturismo, é fundamental fazê-lo de forma consciente e com acompanhamento médico adequado. Realize exames cardiológicos regulares, incluindo eletrocardiograma, ecocardiograma e testes de esforço. Evite completamente o uso de esteroides anabolizantes e outras substâncias proibidas. Mantenha-se bem hidratado e evite protocolos extremos de desidratação antes das competições. Considere competir em categorias com limitações de peso, que parecem ser mais seguras. Priorize sempre sua saúde em relação aos resultados competitivos.

Conclusão: Entenda, Pergunte e Decida com Segurança

Este estudo representa um marco na compreensão dos riscos associados ao fisiculturismo competitivo. Os dados são claros e preocupantes: fisiculturistas profissionais enfrentam um risco significativamente elevado de morte súbita cardíaca, com uma incidência que não pode mais ser considerada rara nessa população. Entre os atletas de elite do Mr. Olympia, a situação é ainda mais alarmante.

No entanto, é fundamental entender que esses riscos não são inerentes à prática da musculação em si, mas sim às práticas extremas associadas ao fisiculturismo competitivo de alto nível, incluindo o provável uso generalizado de esteroides anabolizantes, protocolos drásticos de preparação para competições e a busca por um desenvolvimento muscular que vai além do que é naturalmente alcançável.

Os resultados deste estudo devem servir como um alerta para a comunidade do fisiculturismo e para a comunidade médica sobre a necessidade de medidas preventivas aprimoradas para promover uma participação esportiva mais segura. É necessária uma colaboração entre associações médicas e a comunidade do fisiculturismo para desenvolver estratégias preventivas que reduzam o risco de morte súbita e promovam a participação esportiva segura através da implementação de políticas antidoping, verificações médicas e programas educacionais.

A influência de fisiculturistas profissionais e influenciadores fitness na comunidade geral de fitness pode levar a uma questão preocupante de saúde pública ou se tornar uma oportunidade para iniciativas específicas, trabalhando juntos em uma nova abordagem cultural e perspectiva. O objetivo final deve ser sempre garantir a boa saúde e o bem-estar de todos esses atletas, permitindo que eles persigam sua paixão de forma segura e eficaz.

Se você pratica musculação recreativa, não há motivo para alarme excessivo. O treinamento de força adequado, sem uso de substâncias proibidas, com boa orientação e acompanhamento médico regular, continua sendo uma prática segura e benéfica para a saúde. No entanto, se você aspira ao fisiculturismo competitivo ou já compete, é fundamental estar ciente dos riscos e tomar todas as precauções possíveis para proteger sua saúde.

Converse sempre com seu médico sobre sua prática esportiva, realize exames cardiológicos regulares e, acima de tudo, lembre-se de que nenhum troféu ou título vale mais do que sua vida. A saúde deve sempre vir em primeiro lugar.

⚠️ Aviso Importante: Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não substitui avaliação médica ou orientação profissional. A prática do fisiculturismo deve ser acompanhada por profissionais de saúde qualificados.

Fontes Confiáveis

Este artigo foi baseado no estudo:

Vecchiato, M., Ermolao, A., Da Col, M., Aghi, A., Berton, G., Palermi, S., Battista, F., Savino, S., Drezner, J., Zorzi, A., Niebauer, J., & Neunhaeuserer, D. (2025). Mortality in male bodybuilding athletes. European Heart Journal, 46(30), 3006-3016. https://doi.org/10.1093/eurheartj/ehaf285

Sobre o estudo:

  • Tipo: Estudo observacional retrospectivo
  • Participantes: 20.286 atletas masculinos de fisiculturismo
  • Período: Competições realizadas entre 2005 e 2020
  • Acompanhamento: Média de 8,1 anos (total de 190.211 atletas-ano)
  • Publicação: European Heart Journal (maio de 2025)
  • Instituições: Universidade de Pádua (Itália), Universidade de Washington (EUA), Universidade Médica Paracelsus (Áustria), entre outras

Por que esta fonte é confiável:

  • Publicado no European Heart Journal, uma das mais prestigiadas revistas de cardiologia do mundo
  • Revisado por pares por especialistas independentes
  • Primeiro estudo sistemático em larga escala sobre mortalidade em fisiculturistas
  • Metodologia rigorosa com acompanhamento de longo prazo
  • Autores de instituições acadêmicas renomadas internacionalmente
  • Acesso aberto (Open Access), permitindo verificação pública dos dados e métodos

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